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“Segredos” da doçaria conventual

2016-08-03


Terra que honra as suas tradições, Vila do Conde é conhecida pela sua ligação à construção naval em madeira e à produção das seculares rendas. Mas é também sinónimo de doçaria conventual. Por isso, na Feira Nacional de Artesanato é possível encontrar os típicos vileirinhos, os doces de Santa Clara, os barquinhos de ovos, os papos de anjo, o bolo de chocolate, as queijadas e as barrigas de freira, entre outros. Feita com base nas antigas receitas conventuais, a doçaria tradicional mantém-se no legado de poucas famílias, já que os “segredos” da confecção nunca são revelados.


Foi a partir do século XVI que a arte da doçaria passou a ser cultivada, com elevado esmero, por quase todos os Conventos e Mosteiros existentes no país. Criaram-se especialidades saborosas e de grande valor culinário. E os doces das casas religiosas, inicialmente destinados ao alto clero, depressa ganham fama, dando origem a uma verdadeira indústria conventual em todo o país.


O Mosteiro de Santa Clara de Vila do Conde foi uma das casas onde a arte da doçaria atingiu grande perfeição e, por isso, maior procura. São conhecidas as receitas conventuais das sapatetas, beijos de freira, rosquinhas tolos ou meias-luas. Em quase todos estes doces, predominam as gemas de ovo e a amêndoa. Rezam as crónicas que a sua confecção terá começado pelo aproveitamento das gemas de ovos, de onde eram retiradas as claras para fabrico das hóstias, posteriormente, distribuídas pelas igrejas paroquiais.


A 28 de Maio de 1834 é decretada a lei que determina a extinção das instituições monásticas e Santa Clara não foi excepção. Era apenas concedido, às freiras, "o direito de acabarem em paz nas suas celas". O progressivo desaparecimento das clarissas levou ao empobrecimento do Convento e à consequente diminuição na procura da doçaria.


Com a morte de grande parte destas freiras, as clarissas ainda vivas viram-se obrigadas a admitir as "meninas do coro" – jovens que tinham como função ajudar no cantar dos Ofícios Divinos, mas que aprenderam diversos lavores, entre os quais, a execução dos seculares doces.


Com a morte da última freira, em 1892, as meninas de coro, que entretanto, já tinham crescido, casam e, vivendo na companhia de familiares, legam, de uma forma muito restrita, o testemunho de uma “doce” herança que poderá também ser apreciada até ao dia 7 de Agosto, na Feira Nacional de Artesanato.